Ambiente da Primeira Infância

Pesquisas em Âmbito Internacional*

RESUMO

Essa ferramenta tem o objetivo de apontar os principais resultados de pesquisas realizadas em âmbito internacional, tendo como meta subsidiar políticas públicas e ações voltadas para crianças na primeira infância. Serão apresentados resultados de pesquisas que ajudem na compreensão dos principais fatores que promovem ou dificultam o desenvolvimento integral de crianças nos primeiros 6 anos de vida.

 

PESQUISA E A IMPORTÂNCIA DA PRIMEIRA INFÂNCIA

Um número crescente de pesquisas no mundo tem apresentado evidências de que políticas públicas e ações apropriadas, capazes de estimular o desenvolvimento dos potenciais de crianças na primeira infância, podem ter efeitos positivos durante a infância e a juventude, perdurando por toda a vida adulta. Esses efeitos são particularmente significativos para as crianças que vivem em condições adversas de pobreza e em contextos de vulnerabilidade. Esta ferramenta sintetiza esse corpo de evidências para um público amplo, de modo que se possa utilizá-las para melhorar a formulação, a alocação de recursos e a implementação de políticas e ações a partir de uma base sólida de pesquisa.

Diferentes formas de apoio e assistência às crianças na primeira infância que vivem em contextos de vulnerabilidade podem ter um impacto muito maior, a um custo muito menor, do que políticas e programas voltados para adolescentes e jovens. E a razão é simples. No período da primeira infância é que são construídos os fundamentos sobre os quais se baseia a trajetória que as crianças seguirão durante o resto da vida. Esses fundamentos incluem fatores sociais, cognitivos e emocionais. Os aspectos positivos e negativos presentes no período da primeira infância têm efeitos cumulativos, e estudos recentes mostram que esses elementos básicos comprometem até mesmo a estrutura do cérebro. As bases da arquitetura cerebral são lançadas na primeira infância através de interações dinâmicas entre as influências genéticas, biológicas e psicossociais, de um lado, e o comportamento da criança, de outro. A intensidade do impacto das experiências da primeira infância está relacionada com o momento do desenvolvimento em que ocorrem determinados fatores de risco (timing), a dose ou extensão do risco (exposição) e a reação individual da criança (temperamento) aos fatores de risco e aos de proteção. Políticas públicas, diferentes programas e outras intervenções eficazes podem proteger as crianças das consequências negativas associadas à vida em contextos de pobreza.

Para alguns autores, o que acontece em casa e na comunidade é muito mais importante para a criança pequena do que fatores relacionados ao contexo educacional. “... a família e o ambiente – muito além da escola – desempenham um papel crucial na motivação e obtenção de boas notas, como medida do rendimento escolar”.

Existem várias formas através das quais uma política, um programa ou o ambiente no entorno da criança podem afetar positivamente o seu desenvolvimento. Estas incluem, por exemplo, condições cognitivas, motivacionais e sociais favoráveis, além da importância dos cuidados familiares e do apoio escolar. Ao focarmos a primeira infância, é importante considerar o período pré-natal e suas influências sobre a mãe e o feto, até a idade em que a criança passa da pré-escola para o ensino fundamental. É importante lembrar que, embora os padrões estabelecidos na primeira infância tenham consequências que se estendem até a vida adulta, o que acontece entre a primeira infância e a vida adulta também é essencial para as oportunidades que o indivíduo terá no futuro. Um ano de pré-escola não constitui um antídoto para possíveis danos futuros. Há maior chance de que as políticas públicas e as ações desenhadas para melhorar a vida das crianças na primeira infância sejam eficazes quando se baseiam em pesquisas confiáveis que demonstram resultados e efeitos importantes. Mas alguns cuidados são necessários.

 

CONSIDERAÇÕES SOBRE PESQUISA, POLÍTICAS PÚBLICAS E PRÁTICAS

Esta ferramenta baseia-se primordialmente em pesquisas quantitativas obtidas através de estudos realizados com metodologias de peso. Isso significa que os resultados têm grande probabilidade de se repetirem em circunstâncias semelhantes. Mas existem vários tipos de pesquisas e discursos que contribuem para o nosso entendimento do que a criança precisa. As pesquisas são realizadas em determinados contextos, e decidir em que medida os resultados ou conclusões são válidos em outros contextos fica a critério do avaliador.

Existem também vários tipos de discurso que contribuem para o nosso entendimento dos primeiros anos de vida. Os livros descritivos, por exemplo, escritos por pediatras muito experientes, relatam sua larga experiência com crianças pequenas. Esses livros também refletem a formação clínica do médico e, com frequência, baseiam-se na observação diária das crianças. Estudos recentes em antropologia, sociologia e história da infância também fornecem informações importantes. Esta ferramenta em particular, porém, examina os tipos de pesquisa quantitativa que podem ajudar os formuladores de políticas a avaliar o provável impacto dos programas que escolherem desenvolver e implementar.

A pesquisa quantitativa tem várias vantagens, mas o leitor precisa conhecer suas peculiaridades ao interpretar ou usar os resultados.

Os pesquisadores procuram controlar as condições em que é realizada a pesquisa, de forma a isolar e assim poder descrever as relações entre as causas e os efeitos estudados. A vida real, porém, é imprevisível e incontrolável. Essas condições são provavelmente mais difíceis de controlar em comunidade de baixa renda e superpovoadas e em locais onde há muita violência. Assim, provavelmente só vale a pena implementar para a população geral os resultados que demonstrem os efeitos mais fortes. Os resultados de pesquisas são normalmente publicados em periódicos profissionais quando são considerados estatisticamente significativos, o que significa que a relação observada provavelmente não é mero fruto do acaso. Contudo, alguns resultados estatisticamente significativos podem não ter relevância para políticas públicas se o impacto pesquisado não demonstrou ter um efeito significativo sobre a vida das crianças.

> Um projeto de pesquisa pode ser estatisticamente significativo (ou seja, o efeito observado provavelmente não acontenceu por acaso) sem que o efeito seja significativo o suficiente para valer a pena traduzi-lo em um programa ou política.

> Algumas ideias que funcionam bem em ambientes pequenos, caros e extremamente controlados podem não se traduzir em políticas públicas amplas. Alguns dos chamados projetos piloto não têm como demonstrar que os resultados podem ser traduzidos em políticas e práticas gerais.

> As pesquisas, assim como acontece em várias outras áreas, podem variar de muito boas a muito ruins, dependendo do seu grau de confiabilidade. Nesta ferramenta incluímos somente as pesquisas consideradas “bastante confiáveis”. Em muitos casos, essa avaliação foi feita por instituições de pesquisa altamente respeitáveis, e o material foi selecionado a partir de uma revisão de artigos, relatórios e livros que compõem a literatura de pesquisa.

> Alguns dos estudos mais importantes incluídos nesse guia vêm sendo amplamente debatidos por pesquisadores há vários anos. O Head Start (programa de intervenção precoce desenvolvido nos Estados Unidos), é um bom exemplo. O debate ilustra a dificuldade de identificar os efeitos a curto e a longo prazos de alguns programas porque outras variáveis, alheias às variáveis do programa em si, podem ter influenciado o resultado desejado.

> As pesquisas também estão sujeitas a modismos, que muitas vezes acabam tomando o lugar de outras áreas de pesquisa igualmente importantes. Tomamos como nosso padrão o impacto sobre crianças consideradas vulneráveis, e não o tema da moda segundo os órgãos de financiamento, editores de revistas, instituições acadêmicas e outros grupos que têm o poder de ditar tendências.

> Para alguns pesquisadores, o estudo randomizado, em que um grupo experimental recebe o “tratamento” e um grupo controle não o recebe, é o “padrão ouro” em pesquisa. Esse método funciona bem para descartar outras razões que poderiam explicar os resultados observados. No entanto, muitos estudos randomizados ficam desvirtuados ao final do projeto porque as pessoas abandonam os grupos em proporções diferentes e por outras variáveis ou impactos que afetam os resultados, ou porque o grupo controle fica sabendo do que está acontecendo com o grupo experimental e encontra uma maneira de emular o tratamento. Além disso, os avanços mais importantes para o bem-estar da criança foram alcançados graças à observação cuidadosa e ao trabalho dedicado de profissionais qualificados.

> A pesquisa quantitativa não costuma ser muito boa para medir o apoio emocional e afetivo fundamental de que a criança tanto precisa.

> Uma consequência negativa da busca por novos conhecimentos em diferentes áreas é que as necessidades objetivas de traduzir a pesquisa em políticas públicas e estas em práticas ou são ignoradas ou ficam sujeitas a pesquisas de longo prazo que se revelam irrelevantes quando finalmente publicadas, pois os contextos sociais, políticos e econômicos mudam rapidamente. É por essa razão que esta ferramenta é voltada para um público amplo, incluindo especialistas e profissionais do governo e da sociedade civil com atuação junto à primeira infância, pois geralmente são essas as pessoas que podem ter um impacto mais direto na vida de crianças pequenas na esfera das políticas públicas.

 

* Texto produzido por Malcolm Bush. Tradução de Raffaella Quental. Edição final: Irene Rizzini.

 

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